8M e como está essa mulher guerreira arquiteta? arrisco dizer que a resposta venha de pronto em uníssono: cansada.
Penso em mulheres arquitetas, penso em mim. Tantas camadas possíveis para costurar o tecido infinito das questões interseccionais, multidisciplinares, culturais, geracionais, sociais, irracionais. Em meio às possibilidades de pauta para este dia, coisa de gente grande, assunto sério e necessário, confesso que no momento só consigo pensar que é urgente fazer feira, acabou o lanche da criança e será que estão instalando o piso da obra na direção correta de acordo com a paginação?
Em 2024, Katy Hassel nos convida a repensar a história da arte sem os homens. Com o livro de mesmo título, fruto do desconforto de perceber a avassaladora sub-representação de artistas mulheres em galerias e museus, Hassel se inquieta e inicia sua pesquisa a fim de preencher as lacunas historiográficas deixadas pelos cânones da história da arte, que como é de conhecimento geral e para nossa não surpresa, foram escritos em sua maioria por homens, nesta dita linha do tempo injusta, tecida pelos bastiões sociais, que nega a existência feminina e prioriza um grupo específico da história.
Virginia Woolf em “um teto todo seu”, publicado pela primeira vez em 1929, notando uma produção literária feminina deficiente na linha do tempo das publicações, sugere a questão de que nunca foi permitido às mulheres a tranquilidade de um lugar calmo e silencioso para a escrita e desenvolvimento intelectual, ou um espaço para manifesto de sua expressão. Às mulheres nunca foi dado o direito à privacidade e solitude de estar com seus pensamentos, entre tantos outros direitos que nos foram e permanecem sendo negados. As mulheres não tem meia hora […] que possam chamar de sua. (Woolf, 2014, p.97).
Esta autora afirma que a falta de mulheres reconhecidas como artistas importantes tem sido objeto de debate pelo menos desde a década de 1970 (Hassel, 2024, p.9), quando Linda Nochlin publicou um ensaio pioneiro “Porque não houve grandes mulheres artistas?”. Hassel aponta que mais de quarenta anos depois pouca coisa mudou.
No campo da Arquitetura e Urbanismo, é Andréa Gáti (2021) quem busca preencher parte do vazio feminino nas narrativas historiográficas arquitetônicas que nos formaram, tendo como recorte regional o cenário pernambucano. Gáti se debruça sobre trajetórias colaborativas entre mulheres arquitetas e seus companheiros – também arquitetos – nas quais a parte feminina é frequentemente ocultada da história.
Nossa colega confirma que somente a partir da década de 1960 as mulheres conseguiram ocupar cargos de professora nas disciplinas “masculinas” e desenvolver pesquisas nas áreas de teoria e história e projetos dentro das universidades.
Em mapeamento de referências bibliográficas que cruzam as temáticas de gênero e sexualidade com arte, arquitetura e urbanismo, assim como sugere Hassel(2024) e Gáti (2021), percebemos que é a partir da década de 1960 que este desconforto da invisibilidade feminina nos registros historiográficos parece tomar força e ganhar fôlego, com a incipiente mas promissora entrada de mulheres e abertura das portas para grupos de pesquisa nas universidades. Podemos dizer, na verdade, que tais portas foram metaforicamente arrombadas pela segunda onda do movimento feminista que nesse tempo se anunciava.
Para além da necessidade de existência citada na história, os estudos de fato, da Arquitetura e Urbanismo nas suas relações com gênero e sexualidade despontam somente na década de 1990 em escritos internacionais através do Aaron Betsky (1997) com Building sex: men, women, architecture, and the construction of sexuality, Diana Agreest (1996) com The sex of architecture, e Sexuality and Space de Beatriz Colomina (1992). Agreest (1996) e Colomina (1992), assim como Muxí (2018) reúnem escritos pessoais e de diversos autores. Ainda que tratando sobre sexualidade de modo abrangente, o tema do feminino com a arquitetura é iluminado por tais coletâneas através de ensaios, análises de projeto e documentos pontuais.
No panorama nacional os escritos sobre o tema ganham foco em coletâneas de textos e pesquisas recentes, grupos de estudo voltados para a temática de gênero em abordagens possíveis relacionadas à arquitetura. Destacamos aqui o conjunto organizado por Flávia Nascimento, José Lira, Joana Mello e Silvana Rubino (2017) a partir do seminário Domesticidade, Gênero e Cultura Material com temas de interesse relacionados à memória de mulheres, mulheres arquitetas e sua produção tantas vezes escondida ou apagada pelo protagonismo masculino na arquitetura. Para este último ponto lembramos aqui do recente trabalho de Ana Gabriela Godinho Lima (2012), Guilah Naslavsky e a já citada tese de Andrea Gáti (2021) sobre mulheres na arquitetura e suas parcerias.
Ainda que sejamos jovens neste movimento de tomada das narrativas historiográficas, assim como sugere Andréa Gáti (2021) ao justificar sua pesquisa, os escritos deste 8M aqui anunciados não tem pretensão conclusiva alguma sobre as questões levantadas, mas tem por objetivo ser manchete do tema, com base em trabalhos exploratórios que traz à luz questões preliminares a serem desenvolvidas, dada a urgência que temos pela ocupação das mulheres em espaços físicos, metafóricos e abstratos.
Tomando a academia e premiações que nos são de direito para além do Oscar, é preciso dar um jeito, meus amigos. É preciso que mulheres existam e resistam, nas ruas, praças, nas casas e nos livros de arquitetura. E ainda estamos aqui para falar sobre isso.